Texto III
O veneno é um furo na teoria da evolução. De
acordo com o darwinismo clássico os bichos desenvolvem, por seleção natural, as características que garantem a sua sobrevivência. Adquirem seus mecanismos de defesa e ataque num longo processo em que
5 o acaso tem papel importante: a arma ou o disfarce
que o salva dos seus predadores ou facilita o assédio
a suas presas é reproduzido na sua descendência, ou
na descendência dos que sobrevivem, e lentamente
10 incorporado à espécie. Mas a teoria darwiniana de progressivo aparelhamento das espécies para a sobrevivência não explica o veneno. O veneno não evoluiu.
O veneno esteve sempre lá.
Nenhum bicho venenoso pode alegar que a luta
15 pela vida o fez assim. Que ele foi ficando venenoso
com o tempo, que só descobriu que sua picada era
tóxica por acidente, que nunca pensou etc. O veneno
sugere que existe, sim, o mal-intencionado nato. O ruim
desde o princípio. E o que vale para serpentes vale
20 para o ser humano. Sem querer entrar na velha discussão sobre o valor relativo da genética e da cultura
na formação da personalidade, o fato é que não dá
para evitar a constatação de que há pessoas venenosas, naturalmente venenosas, assim como há pessoas desafinadas.
25 A comparação não é descabida. Acredito que a
mente é um produto cultural, e que descontadas coisas inexplicáveis como um gosto congênito por couve-flor ou pelo “Bolero” de Ravel, somos todos dotados de basicamente o mesmo material cefálico, pronto para ser moldado pelas nossas circunstâncias. Mas
30 então como é que ninguém aprende a ser afinado?
Quem é desafinado não tem remédio. Nasce e está
35 condenado a morrer desafinado. No peito de um desafinado também bate um coração, certo, e o desafinado não tem culpa de ser um desafio às teses psicológicas mais simpáticas. Mas é. Matemática se aprende, até alemão se aprende, mas desafinado nunca fica
40 afinado. Como venenoso é de nascença.
O que explica não apenas o crime patológico como
as pequenas vilanias que nos cercam. A pura maldade inerente a tanto que se vê, ouve ou lê por aí. O
insulto gratuito, a mentira infamante, a busca da notoriedade pela ofensa aos outros. Ressentimento ou
45 amargura são características humanas adquiridas,
compreensíveis, que explicam muito disto. Pura maldade, só o veneno explica.
VERISSIMO, Luis Fernando. O Globo. 24 fev. 05.
“Nenhum bicho venenoso pode alegar que a luta pela vida o fez assim. Que ele foi ficando venenoso com o tempo, que só descobriu que sua picada era tóxica por acidente, que nunca pensou etc.” (l. 14-17).
No trecho, o cronista faz uso do termo “que”, repetidamente.A passagem na qual o termo “que” apresenta a mesma classificação gramatical daquela desempenhada no trecho destacado é:
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a)
“as características que garantem a sua sobrevivência”. (l. 3-4) |
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b)
“a arma ou o disfarce que o salva dos seus predadores”. (l. 6-7) |
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c)
“E o que vale para serpentes vale para o ser humano”. (l. 19-20) |
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d)
“o fato é que não dá para evitar a constatação”. (l. 22-23) |
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e)
“A pura maldade inerente a tanto que se vê”. (l. 41-42) |
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