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Comentários / Petrobrás - Profissional Júnior - Administração - CESGRANRIO - 2015 - Prova Objetiva


Meu ideal seria escrever...

  		Meu ideal seria escrever uma história tão engra-
		çada que aquela moça que está doente naquela casa
		cinzenta, quando lesse minha história no jornal, risse,
		risse tanto que chegasse a chorar e dissesse – “Ai,
	5 	meu Deus, que história mais engraçada!”. E então a
		contasse para a cozinheira e telefonasse para duas
		ou três amigas para contar a história; e todos a quem
		ela contasse rissem muito e ficassem alegremente
		espantados de vê-la tão alegre. Ah, que minha histó-
	10 	ria fosse como um raio de sol, irresistivelmente louro,
		quente, vivo, em sua vida de moça reclusa, enlutada,
		doente. Que ela mesma ficasse admirada ouvindo o
		próprio riso, e depois repetisse para si própria – “Mas
		essa história é mesmo muito engraçada!”.
	15 		Que um casal que estivesse em casa mal-humorado,
		o marido bastante aborrecido com a mulher,
		a mulher bastante irritada com o marido, que esse
		casal também fosse atingido pela minha história. O
		marido a leria e começaria a rir, o que aumentaria a
	20 	irritação da mulher. Mas depois que esta, apesar de
		sua má vontade, tomasse conhecimento da história,
		ela também risse muito, e ficassem os dois rindo sem
		poder olhar um para o outro sem rir mais; e que um,
		ouvindo aquele riso do outro, se lembrasse do alegre
	25 	tempo de namoro, e reencontrassem os dois a alegria
		perdida de estarem juntos.
			Que, nas cadeias, nos hospitais, em todas as salas
		de espera, a minha história chegasse – e tão fascinantemente
		de graça, tão irresistível, tão colorida e
	30 	tão pura que todos limpassem seu coração com lágrimas
		de alegria; que o comissário do distrito, depois
		de ler minha história, mandasse soltar aqueles bêbados
		e também aquelas pobres mulheres colhidas na
		calçada e lhes dissesse – “Por favor, se comportem,
	35 	que diabo! Eu não gosto de prender ninguém!”. E que
		assim todos tratassem melhor seus empregados,
		seus dependentes e seus semelhantes em alegre e
		espontânea homenagem à minha história.
			E que ela aos poucos se espalhasse pelo mundo
	40 	e fosse contada de mil maneiras, e fosse atribuída a
		um persa, na Nigéria, a um australiano, em Dublin,
		a um japonês, em Chicago – mas que em todas as
		línguas ela guardasse a sua frescura, a sua pureza, o
		seu encanto surpreendente; e que, no fundo de uma
	45 	aldeia da China, um chinês muito pobre, muito sábio e
		muito velho dissesse: “Nunca ouvi uma história assim
		tão engraçada e tão boa em toda a minha vida; valeu
		a pena ter vivido até hoje para ouvi-la; essa história
		não pode ter sido inventada por nenhum homem, foi
	50 	com certeza algum anjo tagarela que a contou aos
		ouvidos de um santo que dormia, e que ele pensou
		que já estivesse morto; sim, deve ser uma história do
		céu que se filtrou por acaso até nosso conhecimento;
		é divina”.
	55 		E, quando todos me perguntassem – “Mas de
		onde é que você tirou essa história?” –, eu responderia
		que ela não é minha, que eu a ouvi por acaso na
		rua, de um desconhecido que a contava a outro desconhecido,
		e que por sinal começara a contar assim:
	60 	“Ontem ouvi um sujeito contar uma história...”.
		E eu esconderia completamente a humilde verdade:
		que eu inventei toda a minha história em um
		só segundo, quando pensei na tristeza daquela moça
		que está doente, que sempre está doente e sempre
	65 	está de luto e sozinha naquela pequena casa cinzenta
		de meu bairro.			

BRAGA, R. A traição das elegantes. Rio de Janeiro: Editora Sabiá, 1967. p. 91.

Questão:

Ao estabelecer uma comparação entre sua possível história e um raio de sol (L. 10), o autor busca caracterizar sua escrita como

Resposta errada
a)

engajada

Resposta errada
b)

inconstante

Resposta errada
c)

desnecessária

Resposta errada
d)

insólita

Resposta correta
e)

vívida

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