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Comentários / UFU - Universidade Federal de Uberlândia - Economista - UFU - Universidade Federal de Uberlândia - 2013 - Prova Objetiva


Virtualização dos saberes

Leia o texto a seguir.

                      O advento das tecnologias eletrônicas na cultura contemporânea conduz a
                uma frutífera reflexão sobre a questão da virtualização dos saberes, circunstância 
                própria da era informática na qual, de uma maneira geral, estamos todos inseridos.
                Certamente, jamais encontramos tanta facilidade para a divulgação imediata de 
5             conteúdos tal como atualmente existe no sistema informático, circunstância que,
                interpretada por um viés otimista, representa uma democratização do processo de
                criação intelectual e sua consequente difusão pública. Nessas condições, Pierre Lévy
                afirma: "As atividades de pesquisa, de aprendizagem e de lazer serão virtuais ou 
                comandadas pela economia virtual. O ciberespaço será o epicentro do mercado, o 
10           lugar da criação e da aquisição de conhecimentos, o principal meio da comunicação e 
                da vida social".
                      A "Cibercultura" é um termo utilizado na definição dos agenciamentos sociais
                das comunidades no espaço eletrônico virtual. Estas comunidades estão ampliando e
                popularizando a utilização da Internet e outras tecnologias de comunicação,
15           possibilitando assim maior aproximação entre as pessoas de todo o mundo. Este
                termo se relaciona diretamente com as dinâmicas sociais, econômicas, políticas e 
                filosóficas dos indivíduos conectados em rede, assim como a tentativa de englobar os 
                desdobramentos que este comportamento requisita.
                      Uma análise genealógica do conceito filosófico de virtual nos remete
20           diretamente a Aristóteles, que estabelece a célebre distinção entre ato, aquilo que está 
                efetivamente realizado, e potência, aquilo que virá a ser e que existe em nível 
                intensivo: "O que não tem potência de ser não pode existir em parte alguma, enquanto 
                tudo o que tem potência pode também não existir em ato. Portanto, o que tem 
                potência para ser pode ser e também pode não ser: a mesma coisa tem possibilidade
25           de ser e de não ser".
                      É importante destacar que, para a consciência irrefletida do senso comum, o 
                virtual representaria algo próprio do irreal, quiçá inexistente de fato. Todavia, tal
                perspectiva não corresponde ao significado filosófico de virtual: algo que existe sem 
                possuir, todavia, concretude, caráter palpável, encontrando-se assim em estado de 
30           potência; o virtual ainda não é de fato, atual, mas poderá vir a ser; assim sendo, o 
                virtual de alguma maneira já existe, ainda que em uma dimensão não concreta.
                      O virtual se caracteriza pela intensidade. A potência do virtual reside na sua 
                fonte indefinida de atualizações, circunstância que transcende as naturais limitações
                espaço-temporais tal como existentes nos processos difusores comuns. Decorre 
35           desse contexto a assimilação do conceito de virtual pelo jogo de linguagem da 
                informática, ela mesma um modelo de discurso epistemológico que trouxe para o
                âmbito do pensamento humano a reflexão sobre a possibilidade de um meio 
                desprovido de extensão fornecer aos seus usuários uma possibilidade de trocas
                constante de conteúdos informativos. Um meio virtual, no sentido amplo, é um 
40           universo de possíveis, calculáveis a partir de um modelo digital.
                       No entanto, o virtual não se contrapõe ao real tal como nós o conhecemos no 
                cotidiano; é, na verdade, uma espécie de extensão desse mundo que denominamos 
                como "real" por meio de instâncias imateriais, justamente pelo fato de não depender
                de bases concretas para se desenvolver: "O virtual não "substitui" o "real", ele
45           multiplica as oportunidades para atualizá-lo". Nessas condições, torna-se claro que,
                em cada momento de nossas existências e experiências, nos encontramos
                plenamente delineados pela condição virtual: "O mundo humano é "virtual" desde a 
                origem, mesmo antes das tecnologias digitais, porque contém por todo o lado
                sementes do futuro, possibilidades inexploradas, formas por nascer que a nossa 
50           atenção, os nossos pensamentos, as nossas percepções, os nossos atos e as nossas 
                invenções não param de atualizar".
                     A expansão da informática e sua culminação epistemológica pela Internet 
                possibilitaram o desenvolvimento de um sistema colaborativo entre os indivíduos
                separados espaço-temporalmente em decorrência das condições físicas da própria
55           condição concreta da existência, mas virtualmente unificados pela grande rede:
                "Sujeitos e objetos, autores e destinatários perdem a sua bem distinta identidade em
                favor de redes contínuas de produção de informações". Em outras palavras, a
                mensagem parte de um centro difuso para atingir uma periferia numerosa de
                receptores separados entre si fisicamente. Esse processo comunicativo é o único que 
60           torna os usuários centros ativos da construção dos modelos de contato interpessoal.
                     Na era informática, a construção antropológica do saber se torna uma 
                experiência multilateral, e não mais unilateral, conforme os princípios dogmáticos da
               instituição teológica normativa (sectária do argumento de autoridade), ou bilateral,
               disposição característica da relação dialógica; desse modo, todos os sujeitos
65          devidamente conectados na rede eletrônica tornam-se difusores de conceitos,
               informações, saberes. Pierre Lévy denomina essa experiência holística de "inteligência
               coletiva", pois a Internet depende, para o seu contínuo progresso, da atividade plena
               dos seus usuários, que elaboram de maneira interativa os conteúdos disponibilizados
               na rede virtual: "O problema da inteligência coletiva é descobrir ou inventar um além 
70          da escrita, um além da linguagem tal que o tratamento da informação seja distribuído
               e coordenado por toda parte, que não seja mais o apanágio de órgãos sociais 
               separados, mas se integre naturalmente, pelo contrário, a todas as atividades
               humanas, volte às mãos de cada um". A finalidade da inteligência coletiva consiste em
               colocar os recursos das grandes coletividades ao serviço das pessoas e dos
75          pequenos grupos, e não o contrário.
                     Trata-se do deslocamento de um sistema em que o emissor produz um
               discurso, enviando-o em seguida para um grupo de receptores para uma estrutura de 
               comunicação multidirecional, onde não está definido quem são os emissores e os 
               receptores. O filósofo polonês Adam Schaff postulava que a sociedade informática
80          permitirá a formação do homem universal, no sentido de sua formação global, que lhe
               permitirá fugir do estreito caminho da especialização unilateral e não de se libertar do
               enclausuramento numa cultura nacional - para converter-se em um cidadão do mundo 
               no melhor sentido do termo.
                      Nesse sentido, o jogo de linguagem da Internet exige do usuário uma
85          transformação em seus paradigmas intelectuais, sustentados tradicionalmente por
               uma adequação a um modelo epistemológico de caráter centralizador próprio da
               configuração ideológica da cultura ocidental, marcada pelo respeito cego ao
               argumento de autoridade e aos discursos universalistas próprios da tradição ocidental.
                     Para Pierre Lévy, "O uso socialmente mais rico da informática comunicacional
90          consiste, sem dúvida, em fornecer aos grupos humanos os meios de reunir suas
               forças mentais para constituir coletivos inteligentes e dar vida a uma democracia em
               tempo real".

BITTENCOURT, Renato Nunes. Filosofia,Ano VI, n.º 68 (Adaptado)

Questão:

Assinale a alternativa em que a expressão em negrito tem a função de indicar uma restrição em relação ao argumento que vinha sendo desenvolvido pelo autor.

Resposta errada
a)

“[...] O uso socialmente mais rico da informática comunicacional consiste, sem dúvida, em fornecer aos grupos humanos os meios de reunir suas forças mentais [...]”. (linhas 89 - 91)

Resposta errada
b)

Em outras palavras, a mensagem parte de um centro difuso para atingir uma periferia numerosa de receptores separados entre si fisicamente”. (linhas 57 - 59)

Resposta errada
c)

“[...] o virtual não se contrapõe ao real tal como nós o conhecemos no cotidiano; é, na verdade, uma espécie de extensão desse mundo que denominamos como ´real´[...]”. (linhas 41 - 43)

Resposta correta
d)

“[...] o virtual de alguma maneira já existe, ainda que em uma dimensão não concreta.” (linha 31)

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