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Entre a Cruz e a Caldeirinha

Quantas divisões tem o Papa?”, teria dito Stalin quando alguém lhe sugeriu que talvez valesse a pena ser mais tolerante com os católicos soviéticos, a fim de ganhar a simpatia de Pio XI. Efetivamente, além de um punhado de multicoloridos guardas suíços, o poder papal não é palpável. Ainda assim, como bem observa o escritor Elias Canetti, “perto da Igreja, todos os poderosos do mundo parecem diletantes”. Há estatísticas controvertidas sobre esse poder eclesiástico. Ao mesmo tempo que uma pesquisa da Fundação Getúlio Vargas indica que, a cada geração, cai o número de católicos no Brasil, outra, da mesma instituição, revela que, para os brasileiros, a única instituição democrática que funciona é a Igreja Católica, com créditos muito superiores aos dados à classe política. Daí os sentimentos mistos que acompanharam a visita do papa Bento XVI ao Brasil. “O Brasil é estratégico para a Igreja Católica. Está sendo preparada uma Concordata entre o Vaticano e o nosso país. Nela, todo o relacionamento entre as duas formas de poder (religioso e civil) será revisado. Tudo o que depender da Igreja será feito no sentido de conseguir concessões vantajosas para o seu pastoreio, inclusive com repercussões no direito comum interno ao Brasil (pesquisas com células-tronco, por exemplo, aborto, e outras questões árduas)”, avalia o filósofo Roberto Romano. E prossegue: “Não são incomuns atos religiosos que são usados para fins políticos ou diplomáticos da Igreja. Quem olha o Cristo Redentor, no Rio, dificilmente saberá que a estátua significa a consagração do Brasil à soberania espiritual da Igreja, algo que corresponde à política eclesiástica de denúncia do laicismo, do modernismo e da democracia liberal. A educadora da USP Roseli Fischman, no artigo “Ameaça ao Estado laico”, avisa que a Concordata poderá incluir o retorno do ensino religioso às escolas públicas. “O súbito chamamento do MEC para tratar do ensino religioso tem repercussão quanto à violação de direitos, em particular de minorias religiosas e dos que têm praticado todas as formas de consciência e crença neste país, desde a República”, acredita a pesquisadora. Por sua vez, o professor de Teologia da PUC-SP Luiz Felipe Pondé responde assim àquela famosa pergunta de Stalin: “Quem precisa de divisões tendo como exército a eternidade?

(Adaptado de Carlos Haag, Pesquisa FAPESP n. 134, 2007)

1 -

A expressão entre a cruz e a caldeirinha indica uma opção muito difícil de se fazer. Justifica-se, assim, sua utilização como título de um texto que, tratando da atuação da Igreja, enfatiza a dificuldade de se considerar em separado: 

a)

a ingerência eclesiástica nas atividades comerciais e nas diplomáticas.

b)

a instância do poder espiritual e o campo das posições políticas.

c)

o crescente prestígio do ensino religioso e a decadência do ensino laico.

d)

os efetivos militares à disposição do Papa e a força do pontificado.

e)

as denúncias papais do laicismo e os valores da democracia liberal.

2 -

Atente para as seguintes afirmações:

I. As frases de Stalin e de Elias Canetti, citadas no 1o parágrafo, revelam critérios e posições distintas na avaliação de uma mesma questão.

II. Na Concordata (referida no 3.º parágrafo), a Igreja pretende valer-se de dispositivos constitucionais que lhe atribuem plena autonomia legislativa.

III. A educadora Roseli Fischman propõe (4º parágrafo) que o ensino religioso privilegie, sob a gestão direta do MEC, minorias que professem outra fé que não a católica.

Em relação ao texto, está correto APENAS o que se afirma em:

a)

I.

b)

II.

c)

III.

d)

I e II.

e)

II e III.

3 -

Considerado o contexto, traduz-se adequadamente o sentido de um segmento em: 

a)

o poder papal não é palpável = o Papa não dispõe de poder considerável.

b)

parecem diletantes = arvoram-se em militantes.

c)

com créditos muito superiores = de muito maior confiabilidade.

d)

repercussões no direito comum interno = efeitos sobre o direito canônico.

e)

denúncia do laicismo = condenação dos ateus.

4 -

Ao se referir ao poder da Igreja, Elias Canetti e Luis Felipe Pondé:

a)

admitem que ele vem enfraquecendo consideravelmente ao longo dos últimos anos.

b)

consideram que, na atualidade, ele só se manterá o mesmo caso seja amparado por governos fortes.

c)

afirmam que nunca ele esteve tão bem constituído quanto agora, armado da fé para se aliar aos fortes.

d)

lembram que a energia de um papado não provém da instituição eclesiástica, mas da autoridade moral do Papa.

e)

advertem que ele não depende da força militar, uma vez que se afirma historicamente como poder espiritual.

5 -

Na frase Quem precisa de divisões tendo como exército a eternidade?, o segmento sublinhado pode ser substituído, sem prejuízo para o sentido e a correção, por:

a)

ao ter no exército sua eternidade?

b)

fazendo do exército sua eternidade?

c)

contando na eternidade com o exército?

d)

dispondo da eternidade como exército?

e)

provendo o exército assim como a eternidade?

6 -

As normas de concordância verbal estão plenamente respeitadas na frase: 

a)

Deve-se firmar alguns acordos entre o Vaticano e o Brasil durante as discussões da Concordata.

b)

Nunca chegou a preocupar Stalin, naturalmente, os guardas suíços que constituem a segurança do Vaticano.

c)

Ao se deterem na estátua Cristo Redentor, no Rio de Janeiro, os olhos de um turista não verão o que de fato ela consagra.

d)

As concessões vantajosas que pretendem obter, nas discussões da Concordata, a Igreja Católica, dizem respeito a questões polêmicas.

e)

Muitas repercussões passarão a haver no direito interno, caso a Concordata consagre os acordos que constituem o principal interesse da Igreja.

7 -

Está correta a flexão de todas as formas verbais da frase: 

a)

Tudo o que advir como poder da Igreja tem correspondência com o plano simbólico e espiritual.

b)

O poder civil e a esfera religiosa nem sempre conviram quanto à busca de um sereno estabelecimento de acordos.

c)

Ao longo da História, nações e igrejas muitas vezes se absteram de buscar a convergência de seus interesses.

d)

A pergunta de Stalin proveu de sua convicção quanto ao que torna de fato competitivo um país beligerante.

e)

Ciente da fragilidade militar da Igreja, o ditador não se conteve e interveio na História com a famosa frase.

8 -

A frase que admite transposição para a voz passiva é:

a)

Perto da Igreja, todos os poderosos do mundo parecem diletantes.

b)

A Concordata poderá incluir o retorno do ensino religioso.

c)

Há estatísticas controvertidas sobre esse poder eclesiástico.

d)

Não são incomuns atos religiosos com finalidade política.

e)

O Brasil é um país estratégico para a Igreja Católica.

9 -

Está clara e correta a redação deste livre comentário sobre o texto: 

a)

Deve de ser preocupante para os católicos, que eles venham caindo de número nas estatísticas, em conformidade com a Fundação Getúlio Vargas.

b)

Mau-grado seu desempenho nas estatísticas da FGV, esta mesma instituição considera que a Igreja tem mais prestígio que outras classes.

c)

A mesma Fundação em que se abona o papel da Igreja como democrática, é também a instituição em que avalia seu decréscimo de fiéis.

d)

Não obstante esteja decrescendo o número de fiéis, a Igreja, segundo a Fundação Getúlio Vargas, é prestigiada como instituição democrática.

e)

A FGV, em pesquisas atinentes da Igreja Católica, chegou a resultados algo controversos, seja pelo prestígio, seja pela contingência do seus fiéis.

10 -

Está adequada a correlação entre tempos e modos verbais na frase: 

a)

Se o Papa dispusesse de inúmeras e bem armadas divisões, talvez Stalin reconsiderasse sua decisão e buscasse angariar a simpatia de Pio XI.

b)

Como alguém lhe perguntou se não é o caso de ganhar a simpatia de Pio XI, Stalin lhe respondera que ignorava com quantas divisões conta o Papa.

c)

Caso o Brasil não fosse um país estratégico para a Igreja, a Concordata não se revestirá da importância que lhe atribuíram os eclesiásticos.

d)

São tão delicadas as questões a serem discutidas na Concordata que será bem possível que levassem muito tempo para desdobrar todos os aspectos.

e)

Roberto Romano lembra-nos de que já houve, na História, atos religiosos que acabassem por atender a uma finalidade política que é prevista.

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